23 Set 2009
Sobre valores
Uma das coisas que os ilustradores mais discutem aqui no Brasil é em relação aos valores cobrados pelos profissionais.
Imagina o cara que trabalha na área, após anos de estudo e dedicação, ter que concorrer com o fulano da esquina que cobra R$10,00 numa ilustração.
É simplesmente desleal. Um ilustrador vive do que faz e possui despesas mensais como qualquer um, tendo que pagar suas contas, gastar dinheiro com material e pessoal, comprar a comida do cachorro… é simplesmente inadmissível que um profissional tenha que diputar terreno com o constante amadorismo e cara de pau de oportunistas.
Postura profissional é algo essencial para qualquer um que queira trabalhar na área, ainda mais numa profissão onde o teu nome está em evidência. A reputação ao manter um bom trabalho e uma boa relação com seus clientes é essencial para que se possa conservar a atividade profissional.
Então o ilustrador não pode somente estar preocupado em conseguir o máximo de trabalhos que puder sem se preocupar com questões como ética e respeito a sua classe profissional. É preciso estar antenado ao mercado e atual situação dos seus companheiros de profissão, procurando trabalhar num fluxo conjunto de idéias e ambições.
Muitos se apegam a uma justificativa pífia de que a necessidade leva ao desespero e cobranças irrisórias, mas esse tipo de atitude acaba se mostrando um ato de suicídio, pois uma vez que você começa a cobrar barato por um bom trabalho, sempre vão querer que você cobre aquilo. Não caiam na conversa de que “é só dessa vez e nas próximas pagaremos mais.” Estão te enrolando.
É simples, se o cliente não pode te pagar de forma alguma, não adianta. Você vive do que produz, não caia na história de “simples divulgação”, pois quem mais fala isso é cliente que tem grana mas não quer pagar. No Brasil existe a mentalidade que quanto mais barato melhor. Cabe ao ilustrador assumir uma postura de respeito a si mesmo, aos seus iguais e ao seu cliente (pois ele merece trabalho de qualidade e isso tem seu custo.)
Às vezes o pagamento não vem em dinheiro, mas saiba analisar essas situações com atenção, existem boas iniciativas, quem vale a pena gastar um pouquinho do seu tempo, mas, principalmente para o iniciante, a maioria desses casos se mostram grandes armadilhas de quem quer se aproveitar. Por mais que a iniciativa seja boa, analise o seu pagamento pelo tamanho do bolso do seu cliente. Não há lógica nenhuma no mundo alguém que tem dinheiro, que lucra com teu trabalho, querer que você faça aquilo por divulgação (alô, alguém aqui ouviu Zupi?!)
Em contrapartida, temos um grupo de pessoas que mal aprenderam a pegar um lápis, abrir um photoshop e ja querem entrar no mercado, sem saber absolutamente nada sobre a profissão, fazendo aquilo que acha que funciona. É o carinha lá do início do texto, que cobra uma merreca e se acha o máximo por isso. Quem faz isso fica estagnado, pois não progride nunca (ja que lhe falta dedicação e senso crítico) e acabará sempre vivendo de migalhas, prejudicando quem quer algo de verdade.
É preciso um consenso de todas as partes envolvidas, desde os grandões que ganham seus milhares de mega-empresas (pois não adianta querer que todos, inclusive os medianos e quem ta começando agora, cobrem a mesma fortuna,) aos clientes e aspirantes que precisam ser guiados no aprendizado de respeito e postura profissional.
Eu sei que não é fácil. Eu vivo em uma cidade onde não há preço base, onde os clientes querem pagar uma piada pelos serviços e usam o simples fato de que “é por ser uma cidade pequena” como justificativa. Com esse pensamento, cidades pequenas nunca crescem e a situação não se desenvolve. Mas não é por isso que vou cair no desespero e fazer meu serviço por qualquer troco, desvalorizando meu trabalho. No meu caso, foi preciso focar em outros lugares, procurar clientes de outras regiões e assim está funcionando, o que na verdade acaba sendo quase que uma regra para qualquer brasileiro que queira trabalhar com game e quadrinhos. Ainda é pouco, mas vejo tal atitude mudar aos poucos e alguns clientes aqui aprendem que nem sempre o barato compensa.
Existem iniciativas no nosso país que buscam melhorar a situação, tem a SIB, o HQMIX e Guia do Ilustrador, que procuram padronizar as tabelas e práticas profissionais dos ilustradores do nosso país e grupos como o Ilustragrupo que buscam orientar desde o veterano ao iniciante e discutir assuntos do nosso campo para que a coisa comece a andar nos eixos.
Por mais que nosso trabalho envolva entretenimento, não se deve levar a coisa pelo rótulo “artísticamente poético” e usar isso para justificar desleixo e falta de posicionamento profissional. Saber negociar é faclitar e potencializar as coisas para ambos os lados, não é abrir as pernas e fechar os olhos, afinal, até prostituta pode ser “profissional du sékissu”.
Sem mais por hoje, eu só ia falar que coloquei minha tabela de valores no site, mas acabei viajando na idéia e indo além.



